segunda-feira, 26 de novembro de 2012

PRELIMINARES


Um sujeito de bom coração. Até quando tirava sarro de alguém deixava transparecer um sutil sorriso no canto da boca - gesto inconsciente para atestar que sua intenção não era a mágoa, mas tão somente o humor. Recebia críticas com tranquilidade. Ombros e ouvidos sempre disponíveis. Profissional dedicado, não negava favores. Baladeiro divertido. Gente boníssima. Não era à toa que suas caminhadas pelo centro da cidade eram interrompidas a todo o momento pelos cumprimentos dos amigos.
E como falava. Uma espécie de necessidade física - quando não despejava todas as palavras em momento oportuno, uma semana de Activia era pouco para desobstruir suas vísceras. Chegou a ter uma apendicite como efeito colateral de uma rouquidão de dois dias.
Bom de papo. Histórias legais; nem sempre pitorescas, porém invariavelmente repetidas. Algumas vezes em dias distintos; na maioria delas apenas segundos depois de contar a primeira (e/ou a segunda) versão. Escutava, gargalhava, participava; desde que o desenrolar da conversa não o impedisse de concluir seu caso, senão trazia o tema novamente à roda durante a simples respirada do interlocutor.
Filosofia incidental de boteco:
“Muitos irmãos... Se o cara não se impõe pela fala perde o sorteio do bife!”.
“Porra acumulada não deve ser, porque uma bronha alivia mais do que passe espiritual e descarrego da Universal!”.
“Uma pena que não tenha jóquei clube em Floripa: daria um locutor e tanto!”.
Hipertireoidismo? Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)? Nada disso! Era apenas detalhista – adorava contar os pormenores. Aliás, gostava tanto que se perdia no meio deles. “Foco, Presidente!” – gritavam os menos pacientes, chamando-o pelo título que ganhara depois de atingir o ápice da carreira sexual. Ele nem se importava – ria e seguia sua verborragia sem se preocupar com o destino.
Nem sempre é o desfecho que faz a obra – existem ótimos filmes e livros com finais pífios e enredos maravilhosos. O problema é quando a contracapa conta demais: enquanto não chega na bendita parte interessante, o sujeito presta pouca atenção no desenrolar da trama. Ou pior: só quer saber do tal episódio – pula páginas ou aperta o fdw no controle para, aí sim, degustar o acontecimento principal por todos os ângulos.
Que ele tinha comido, todos já sabiam.“E como foi?” – pergunta o amigo, ansioso pelas minúcias mais picantes.
Era a deixa para o Presidente aliviar o peito: “Então... Eu estava cheio de coisas pra fazer na segunda. O chefe tinha ido viajar e sobrou tudo pra mim. Não me lembro se Joinville ou Criciúma... Acho que Criciúma, porque ele tava preocupado com a duplicação da BR. Como tá demorando aquele trecho sul, né? Culpa daqueles índios paraguaios que montaram duas barracas e instituíram uma reserva migué. Dia desses, quando passei pelo Morro dos Cavalos, quase bati numa van que estava encostando naquele caldo de cana. Às vezes tô em casa e me lembro daquela pamonha... Você já comeu?”.
“Porra, Presidente! Eu já comi e concordo: é gostosa e o milho verde dali também é uma delícia! Mas quem perguntou primeiro fui eu: - Comeu a gostosa ou não, seu pamonha?”.
“Ah, tá! Peraí que já vou chegar lá! Como eu ia dizendo, o big boss foi pro sul – sorte que não cruzou com nenhuma van pelo caminho! –, e eu abarrotado de trabalho aqui. Liguei pra coisinha; o celular tava fora de área. Até porque, se é Tim tá sempre fora de área! Toquei pro fórum pra tentar arrancar o despacho. O assessor era dez! Entendeu tudo e garantiu que falaria com o juiz. Caso foda...”.
“Presideeeenteeee!” – dedos irrequietos tilintando na mesa...
“Calma, cacete! Putz, esqueci de falar: enquanto esperava o assessor, mandei um SMS pra avisar que passaria lá em 20 min. Blá-blá-blá-blá... Whiskas Sachê... Blá-blá-blá-blá... Tic-tac-tic-tac-tic-tac... Jogo do Fluminense... Blá-blá-blá-blá... Black Friday ou Fraude... Tic-tac-tic-tac-tic-tac...”.
O amigo não aguentou: “Aaaaaaiiiiiii, meu Deus!!! Pelo jeito vai terminar com você dando o rabo em alguma esquina pro Tião Skol Litrão...”.
“Tá, seu mala! Peguei em casa, levei no motel e comi!” – respondeu laconicamente, como se o barato tivesse sido subitamente cortado.
Passados alguns segundos, o sujeito arregala os olhos, balança as mãos pedindo misericórdia e grita: “PUTAQUEPARIU!!! Só isso? Tu tá de sacanagem comigo ou não teve sacanagem com ela? Nenhuma bunda durinha, seio siliconado, tatuagem secreta, lingerie de sex shop??? Gatinha manhosa, putinha sem graça, quietinha safada? Nem mesmo uma calçola cor da pele ou vergonha de luz acesa? Eu mereço! Só eu mesmo pra ficar aqui ouvindo esse discurso... Vou sugerir pra rapaziada mudar sua alcunha para ‘Comandante Fidel’! Por favor, moça: outro expressinho com leite!” – desistiu o amigo.
Filosofia final de boteco:
“Eu sei exatamente como foi... Tiraram a roupa, a moçoila empurrou a boca dele ao encontro da perseguida e disse: ‘– E aí, Mr. President, como foi seu dia?’. Dali em diante a língua nervosa não parou mais! Segundo me garantiu a prima, ela gozou três vezes antes mesmo dele protocolar a petição... Parece que agora ganhou o apelido de ‘Prê’ – o Presidente das Preliminares!”.

2 comentários:

  1. Muito Bom!
    Parabéns!!!!
    Será que eu conheço a moça?
    heheeheheh!!!!

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