sexta-feira, 11 de março de 2011

PESO na consciência


Ontem à noite saímos eu, minha esposa e minha filha para jantarmos fora. Eu estava exausto, mas ainda assim a vontade de fugir do pão com margarina de casa triunfou sobre o desejo lacerante de jogar-me na cama imediatamente. Tirei os sapatos apertados, a gravata asfixiante, tomei uma ducha rápida, e logo rumamos ao centro da cidade. Fomos a um restaurante italiano tradicional, com uma massa caseira que se desmancha na boca. Pedi um talharim ao molho pesto e minha esposa comeu um prato que acompanhava um suculento filé, daqueles dignos de foto de propaganda. Tudo delicioso, mas quem gostou mesmo do jantar foi minha filhota, que saboreou uma mamadeira comum como se estivesse bebendo um Château D’Yquem. Aliás, eu tinha tanto sono que sequer bebi um vinhozinho, pois corria o risco de adormecer antes mesmo da conta chegar. De dieta, lembrei-me e prestei uma homenagem a Dom Lona, tomando um suco de beterraba. Que bosta de suco, não sei como ele toma esse troço quase todos os dias. A sobremesa foi um petit gateau de encher os olhos e decepcionar o paladar, mas não o suficiente pra arruinar o jantar. Paguei a conta e vi que lá fora chovia torrencialmente. Pra pequena não pegar a segunda gripe da sua vida por um descuido nosso, fui buscar o carro para apanhá-las, as duas, em frente ao restaurante. Já era tarde, e até os flanelinhas aparentemente já estavam em seus barracos dormindo. Melhor pra mim, economizei dois pilas. Cheguei meio às pressas no carro, tampando parcialmente o rosto com a mão esquerda tentando evitar que os pingos grossos entrassem nos meus olhos, me cegando. Uma rápida sacodida nos cabelos e pronto, dei partida no carro. Engatei a ré e fui lentamente, olhando sempre se havia algum carro vindo pela marginal. Apesar do cuidado, escutei algo batendo na traseira do porta-malas. Olhei pelo retrovisor central e não vi nada. Nada também nos retrovisores laterais. Pensei comigo mesmo que poderia ter sido um galho de árvore, e ri sozinho imaginando que com o azar que tenho, devia ser um côco, tal qual aquela propaganda. Engatei novamente a ré e uma vez mais ouvi o impacto, desta vez acompanhado de gritos. Preocupei-me. Pensei que podia ser um cachorro, mas que também poderia se tratar de um assalto, daqueles que a gente recebe por e-mail e ignora pensando “tem que ser um otário pra cair numa dessas”. Ainda assim, apreensivo, desci do carro. Ao olhar atrás do porta-malas, um frio na espinha: eu havia atropelado um cadeirante! Tenho convicção que eu estava saindo da vaga muito lentamente, mas, talvez por ser um gordinho, a força do impacto fez com que a cadeira danificasse seriamente meu para-choques e arremessasse o inválido longe. A minha segunda tentativa fez com que a cadeira praticamente entrasse embaixo do carro, deformando e arrancando tinta de boa parte da lataria traseira. O gordinho berrava e me xingava de tudo que eu mesmo xingaria se estivesse em seu lugar. Estávamos num breu tremendo, a chuva caía forte, não havia absolutamente ninguém à nossa volta, e aquele diabinho que aparece em desenhos animados sussurrou ao meu ouvido: “ninguém viu”. Ao escutá-lo, pensei em voz alta olhando pro gordinho estatelado no chão: putaqueospariu! Pensei que um incidente absolutamente não intencional como esse poderia me trazer um oceano de incomodações. Publicidade negativa pro escritório, uma indenização obscena daquelas que alguns enodoados magistrados concedem somente a seus pares - até minha filha me chamando de assassino me passou pela cabeça (embora o rapaz não estivesse nem perto de morrer). Um turbilhão de imagens e pensamentos permearam a minha mente, e eu não titubeei. Arranquei a cadeira amassada de debaixo do meu carro, joguei no canteiro que ladeava a calçada, entrei no carro e fugi desesperadamente em direção ao restaurante, sempre procurando por alguma testemunha que pudesse macular meu maléfico plano de fuga. Com o coração na boca pedi sem berrar que minha esposa entrasse logo no veículo. Ela me perguntou por que demorei tanto e desconversei, dizendo que o flanelinha ficou reclamando da minha avareza. Ela retrucou um “como sempre” e aquietou-se. Só o que não encontrava paz alguma eram meus pensamentos. Reconstruí a cena inúmeras vezes, tentando encontrar uma maneira de culpar o gordinho. “Quem mandou ele passar atrás do carro”, pensei uma dezena de vezes. Mas não adiantava, meu lado racional sabia quem era o verdadeiro culpado. Pensei em fazer a volta e pelo menos passar por perto pra ver se alguém estaria o ajudando, mas a chance de ser visto seria grande, até porque dava pra ver de longe o estrago no meu pára-choques traseiro. Fiquei mudo durante todo o percurso até nossa casa. Minha esposa estranhou, mas dissimulei minhas preocupações com um longo bocejo e a tradicional “home, sweet home”. No elevador peguei minha filha no colo e ela me olhou com aquela cara de “eu sei o que você fez, papai”. Só podia ser coisa da minha cabeça. Sequei-me com uma toalha do lavabo e deitei-me às pressas, sem mesmo escovar os dentes. O amargo do suco de beterraba se intensificava a cada minuto, e por dentro eu me remoía num misto de ódio e arrependimento. Agonizei por horas, e o cansaço de outrora deu lugar àquela inquietude característica dos notívagos insones. Não sabia o que fazer. Sentia o corpo padecer, mas algo me incomodava e não me deixava pregar os olhos. Pensei incansavelmente no para-choques arranhado, na lataria amassada. Sentei na cama e cogitei ligar pro Ruggiero pra buscar uma palavra de conforto, apesar de já ser madrugada. Desisti e deitei novamente. Contei carneiros, mas eles logo viraram Audis amassados e arranhados saltando sobre cadeirantes. Fui à cozinha e esquentei um pouco de leite. Mais um esforço inútil. Finalmente sentei no sofá da sala e constatei, racionalmente, que eu não conseguiria dormir com esta dúvida em mente. Precisava desesperadamente de aconselhamento. "Porra, é pra isso que servem os amigos", pensei. Lembrei que Ruggiero também tem uma filha pequena e que Dom Lona estaria sem dúvidas embriagado. Só o mais velho de nós poderia retirar o peso da dúvida de sobre meus ombros. Tomei coragem e liguei pra ele:

- Ezra, tens um martelinho de ouro pra indicar?

6 comentários:

  1. Recomendo ao descuidado motorista a leitura dos textos "O trânsito, os imbecis, e a perigosa combinação de ambos (Partes 1 de 2)", disponíveis neste mesmo blog. :)

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  2. Menos mal que não houve ferido. Imagino, por outro lado, se o cadeirante fosse filho do John Gotti.

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  3. Desde quando tua “força” pro flanelinha deixou de ser R$ 0,15 e passou aos dois reais?

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  4. Putz, faz tempo que não carrego moedas comigo... e como as notas de R$ 1,00 estão extintas, o "faz-me rir" mínimo passou à bagatela de R$ 2,00... uma facada, não?

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  5. Alguma coisa me faz pensar que o cadeirante era um flanelinha disfarçado, com intenção de cometer um seqüestro relâmpago e desistiu após seu ataque brutal.
    Aposto que ele passou a noite inteira com peso na consciência por pensar em assaltar alguém mais perigoso que ele e ficou contando cadeiras de rodas saltando por cima de audis ao invés de carneirinhos.

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  6. Tem razão, JRosa... achei a atitude dele muito suspeita mesmo... onde já se viu, ficar sorrateiramente escondido atrás do meu carro?

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